Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Petite Fleur

Petite Fleur

RÉCITS DES TEMPS

Nestes tempos em que parece que tudo acontece mas em que, de facto, não acontece nada, vem-nos um certo apetite de darmos uma voltinha pela grande História da desfalecida Civilização Ocidental e procurarmos entender, na modéstia das nossas capacidades, esta longa sequência, eivada de desvios e reencaminhamentos, de medos e ousadias, de superstições que acabaram sendo determinantes e tidas como sinais que por vezes parecem estar para lá do humano.

Vem isto a propósito de um facto que sempre me intrigou e ao qual nunca ninguém me deu uma resposta satisfatória: que razão terá levado D.Luís e D.Maria Pia a baptizarem o seu filho primogénito e presumptivo herdeiro com nome de Carlos, nome jamais constante na longa lista de mais de seiscentos anos de monarquia que Portugal já levava? Curiosamente, ao contrário do irmão, a quem foi dado o nome de Afonso Henriques, D. Carlos não tinha na enorme lista de nomes que a sua real pessoa comportava, muitos dos quais - se não todos... - remetiam para significados e ligações familiares ou religiosas que decerto os estudiosos saberão explicar, nenhum dos nomes tradicionalmente usados em qualquer das dinastias!

Não se tratando de um herdeiro por acidente, como foi o caso de seu Pai, a escolha é algo intrigante. E ainda mais intrigante se torna quando  procuramos este nome na história da Europa, ou seja, quando nos confrontamos com "a importância de se chamar Carlos" em qualquer dos idiomas em que quer o poder político e religioso, quer as desgraças da Europa, se registaram para a posteridade.

A Carlos Martel, o rei  Merovíngeo que no século VIII salvou a civilização cristã e o Ocidente da conquista muçulmana, segue-se Carlos Magno, fundador do Sacro Império e da dinastia Carolíngea, imperador que se empenhou em libertar o papado do poder de Bizãncio e que, mesmo não sendo as suas relações com o papa Estevão II as melhores, o apoiou , em 756, na fundação do que viriam a ser os Estados Papais.

Depois de uma longa Idade Média a Europa cristã ressusge com o Carlos Borromeo , arcebispo de Milão, um homem da Renascença que põe especial empenho na educação do clero com a criação dos primeiros seminários e a promoção de sínodos diocesanos e de escritos catequéticos e de divulgação da doutrina católica.

Posto isto, CARLOS surge como o nome que mais se identifica com a determinada defesa da Igreja de Cristo mas que parece esgotar-se em si, transformada a acção dos seus detentores em insuportável e frragilizante fardo para os que lhes sucedem.

Curiosamente o nome, a que se associam tantas glórias da civilização ocidental,  tem associadas, a partir de determinada altura, uma série de tragédias que vão desde os malfadados Stuarts aos banidos Carlistas nossos vizinhos, passando por várias figuras reais que se tornaram personagens romanescas.

No Vaticano, Karol Woijtyla preferiu adoptar para a posteridade o nome de João Paulo II  a ficar como Carlos, o seu nome de baptismo.

E veja-se:  o que a tudo isto me trouxe foi, afinal, o facto de o único rei Carlos que tivemos - sei lá eu porquê! - ter sido protagonista de tão injustificável tragédia que, na realidade, foi o epílogo da Monarquia em Portugal.  

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D