Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Petite Fleur

Petite Fleur

THE TALK OF THE TOWN

Mais que não seja pelo facto de não sermos eternos, é irracional eternizar conflitos. Podemos não compreender, não esquecer o desperdício the tempo que significaram nas nossas vidas que, mesmo não sendo nós hedonistas e tendo, pelo simples facto de vivermos, o nosso quinhão de contrariedades, podemos considerar invulgarmente felizes...pelo menos até à data.

Olhamos para trás e vemos lá no início das nossas vidas - quando várias circunstâncias podiam fazer prever o contrário - uma infância extremamente alegre e feliz, a que se seguiram décadas de um amor/amizade doce e aconchegado, sem frustrações ou perversidades que afectassem a alegria da  nossa casa, um tempo de realização pessoal inesperadamente bem sucedido, amizades que haveriam de nos acompanhar, amores de gente a sèrio que "sabiam bem" mas que se passavam com pessoas como nós, que não atropelavam nada para chegar aos "finalmente" que sabiamos morarem em outros lugares., a alegria de termos conseguido educar os filhos para o mundo onde iriam viver - e não para um lugar imaginario onde se mascarariam de algo que nos satisfizesse a ambição social - e onde constituiriam as suas própriias famílias com gente decente, cujos nomes não andassem nas paragonas dos jornais pelas piores razões, gente nossa que, por mais que nos distanciem questões de critérios, vemos florescer discretamente nas vidas de outras gerações que para sempre serão nossos descendentes. 

Livremente, fizemos sempre as opções que racional ou intuitivamente, foram o agir da nossa liberdade sem que nisso interferissem outros critérios que não aqueles que conscientemente receberamos, questionaramos e adoptaramos. Depois disso, obviamente, não iriamos, já velhos, negá-los ao sabor das circunstâncias, apenas porque não reconheceram em nós aquilo para que em casa nos fadaram e que nos roubou o precioso tempo para cultivarmos os dons com que Deus - proscrito ou não da nossa vida - nos dotou.

As nossas vidas, por mais banais ou condicionadas que possam parecer, estão quase sempre recheadas de acontecimentos inesperados, tanto no tempo como no espaço. Mas acontecem, e não vale a pena chorar sobre os cenários "cor de rosa" - como os horrosos lençóis às florinhas  dos supermercados que, penso, com um bocado de sorte acabarão por ficar brancos depois de umas passagens pela máquina...- porque a vida é como é, uma paleta colorida inspirada no arco-íris, e pode sempre acontecer que alguém abra a paleta fora do "cor-de-rosa" (côr que não existe porque as rosas, até elas, são de cores várias) e, despidos dos óculos  tingidos de rosa não consigamos fitar a Luz clara da Verdade. Pecado de quem limpou as lentes? Talvez! Pecado de quem no-las ofereceu? Não interessa!

O essencial é que todas as histórias têm uma conclusão, tanto em fitas coloridas como a preto e branco. E há que ter a coragem - palavra que ouvi gritada hoje numa despedida - de colocar o ponto final. Os episódios, interessantes que possam ser de seguir, como muitos outros, passam-se num país que não é o nosso, para onde o personagem central emigrou, lugar que desconhecemos e onde reiniciará, embora tarde, uma nova vida - será nova??? - com outra linguagem, outros interesses, outras crenças, outra ética, outra estética. Um lugar lá longe que não poderiamos, ainda que quisessemos, alcançar e que não desejamos conhecer.

O outro, o que morreu quando partiu os óculos cor-de-rosa, ficará para sempre no nosso coração. Saberá sempre onde nos encontrar "se" ou "quando" a única pessoa, ou coisa que ainda o ligue ao tempo perdido - a Fé, a admiração por um homem que deixou dela em texto uma visão  notável - desaparecerem ou falharem no meio desse mundo circense onde se acotovelam gerações, velhos pecadilhos, estratégias, projectos, vinganças, ambições e, talvez, esperanças e realizações. Contudo, nada disso jamais valerá o que  de grandeza poderia ter sido!

 

NÃO DESAFIARÁS O SENHOR TEU DEUS

Em plena Quaresma não será descabido lembrar a tentativa feita pelo demónio oferecendo a Jesus todas as riquezas do mundo se ele provasse que a protecção divina o isentaria de quaisquer danos por maior que fosse o risco assumido. Na minha nada teológica interpretação - não tenho formação para tal - Jesus não terá aceitado não apenas por uma questão de humano bom-senso como pela transcendente certeza de que a sua condição divina - e d'ela todos temos um pouco... - não se coadunava com desafios entre o Absoluto e o efémero.

Vem isto a propósito de uma meditação que li há pouco sobre a sociedade em que nos calhou viver, em que o imediato atropela o sentido das coisas e o Absoluto é um oito deitado onde repousa o infinito matemático. Porque será que somos assim e nos vamos "aperfeiçoando" neste estilo de vida onde a mentira prolifera e consegue mostrar-se como chave do êxito?

Creio que um dos motivos é uma educação fundamentada nos princípios do século dezanove em que o paradigma era uma burguesia sem pertença, que se queria longe das suas mais modestas origens e se esforçava por ser aceite por uma aristocracia que fora forçada a optar entre a ruina e a tolerância. Uma educação que estipulou como príncipios básicos três "mandamentos"  - que infelizmente ainda vigoram...- que funcionavam como prevenção contra aquele mundo por eles organizado. Eram eles:

1 - se o acusarem de alguma coisa negue sempre mesmo que seja verdade

2 - se fizer uma asneira não se desculpe nem emende. Persista na asneira até que ela seja aceite como apenas algo de diferente  e empenhe-se em que tenha êxito

3 - nunca julgue os outros - a menos que seja dentro do seu círculo...- para que não dê aso a que o julguem. 

É nesta base que foi educada e procede  grande parte da sociedade que temos. Uma sociedade que vive da sua astúcia , do receio e da ignorância alheios , e que prolifera em épocas de extrema vulnerabilidade.

Perguntamo-nos muitas vezes como tantas fatalidades, a que também não estamos imunes, recaem numa violência que confrange sobre famílias inteiras: doenças raras, acidentes, casamentos inadequados, divórcios, comportamentos desviantes, tudo parece confluir e, com pena misturada pelo receio de que venhamos a ser dos atingidos, damos por nós a pensar o porquê de tanta desgraça sobre gente que consideramos, tal como Job, "justa e temente a Deus".

Como poude Javé - que não é ainda o Deus compassivo que envia o seu filho para conviver com as misérias do mundo - consentir que o diabo se apossasse não da integridade física de Job mas de todas as suas conquistas: família, bens, dignidade, consideração dos amigos? É um mistério que persiste mesmo atendendo ao fim feliz, embora algo precipitado, que o Livro lhe atribui.

Seria Job perante Deus aquele homem que , em ambas as situações, era  perante o julgamento dos homens? Como teria Job chegado até ali, ainda que tendo apenas consciência do que de bem fizera e ignorando tudo o que o não fora? O largo tempo de introspecção que Javé lhe concede - e durante o qual Job enceta monólogo com Ele - somado às desgraças que o atingem é suficiente expiação para podermos acreditar que Javé o tenha recompensado.

Na nossa "linha da vida" deparamo-nos com casos semelhantes, ainda que sem essa dimensão biblíca . E o que sempre nos espanta é a reacção, mais social do que intíma, que leva os homens a desfiarem Deus, repetindo erros, ignorando sinais. Como se dissessem: "Aceito com humildade o que me dás mas vou provar-te que a minha força me permite contrariar o que aparenta serem os teus designios. Negarei a verdade até que ela seja aceite, insistirei nos erros que não terão merecido a tua aprovação até que se transformem em vitórias, ignorarei dos outros o direito de me julgarem. E ninguém, mas ninguém, tenha pena de mim!"

A verdade porém é que, sendo um procedimento socialmente correto que apenas poderá ser punido pela justiça de homens igualmente vulneráveis - que pode ir desde a punição social "tout court" à prisão perpétua ou à pena ee morte - outros há que transcendem a justiça dos homens e que decerto reacenderão vezes sem conta o monólogo de Job. 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D