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Petite Fleur

Petite Fleur

A SUBLIME IGNORÃNCIA

Vem isto a propósito de uma ida a uma estação dos Correios para registar uma carta. Havia uma fila grande gente à minha frente e isso deu para observar todos os produtos que por lá estavam expostos. Espantou-me a quantidade livros e, especialmente, a qualidade "didáctica" com que se apresentavam. Todos, sobretudo todas, tinham conselhos a dar sobre a educação de filhos, ainda que fosse através da Astrologia, sobre os diferentes modos de encarar a vida nas suas diversidades e adversidades, sobre o amor, sobre tudo o que lhes vem à cabeça quando lhes dá para escrever. Mulheres decerto inspiradas pelos exitos que terão tido como mulheres ou como mães, o que lhes confere a missão de orientar as outras  nesses caminhos.

 A verdade é que ali estavam  prateleiras e mesas  cheias de conselhos - muito provavelmente insuflados em anos de psicanálise... - apelando ao lazer dos eventuais "clientes", num lugar onde seria de bom-senso e de bom gosto expor os nossos grandes escritores que, no meio desta avalanche de literatura que não tardará um ano sem que seja vendida a peso como papel para reciclagem, se distanciam cada vez mais do convívio com os leitores. Nomes como Eça, Aquilino, Raúl Brandão, Camilo, Paço d' Arcos, Ramalho, Pessoa - este, talvez pelo isoterismo que o envolve, reservado a tertúlias pessoanas - Pascoais, Fialho, e tantos outros grandes escritores e poetas de Língua portuguesa que são lidos em todo o mundo e que ficariam bem nos escaparates convidativos das estações de Correios. Acresce que o funcionário que me atendeu me deu conta da disputa levada a cabo por escrevinhadores e editores no sentido de os seus livros ocuparem os lugares mais chamativos. "Um inferno!".

A verdade é que escrever já não é mais uma actividade lúdica! Poucos são os que ainda escrevem cartas das que eram segredos sobre pensamentos, lugares ou sentimentos directos ao coração dos Amigos, e creio que  menos ainda aqueles que mantêm um diário onde se vão dando conta do caminho percorrido, das suas esperanças, contradições, alegrias, desilusões. Hoje, apesar dos queixumes colectivos, toda a gente diz considerar-se heroicamente feliz ou em vias de o ser, e acha que deve partilhar esse estado de espírito - se tal se lhe pode chamar...- com os "infelizes" que, partindo da generalização do colectivo, andam por aí perdidos  "à la recherche  d'un heureux conseil".

Acontece que a edição tornou-se um modo de vida dos mais rentáveis e com menos empate de capital. Não me refiro, claro, aos Editores com um lugar já consagrado que nos leva a confiar no editado, mas a uma máquina editorial que se serve de tudo o que apareça escrito, desde um slogan de parede aos muitos textos, melhores ou piores, que circulam nas redes sociais. Tudo serve de inspiração a um qualquer "argumentista" que pega na ideia, dá uma volta ao texto para não parecer plágio, tira metade de um comentário do Face e completa-o com algo semelhante que leu no Twitter, recorre às estatísticas para conhecer a medida de "gostos" que merece, e temos romance! Caso valha a pena, põe-se o tradutor automático a funcionar, acrescentam-se na página de edição os nomes de dois ou três amigos como tradutores e revisores, e, caso o escrevinhador se ponha com exigências, pede-se a uma Editora que o aceite como subcontratado para ter direito a um lugar num livreiro.

O mesmo se passa com as publicações de imagens postadas nas redes sociais  que, diga-se, se bem escolhidas dão ricas capas a pobres livros. Melhor ainda se "os business angels" forem chamados a colaborar através do aperfeiçoamento dos desenhos gratuitos  dos internautas. Um negócio primorosamente montado, que não tem nada que o confunda com cultura, uma escrita feita pela máquina e para a máquina, a ciência da ficção em que, creio, o único que poderá ter algum encargo é o escritor desejoso de se ver publicado e aceder assim ao estrelato de um escaparate de um qualquer lugar de venda de jornais e revistas ou, se for bem relacionado, conseguir que um incauto empregado do livreiro lhe coloque o título entre os "top" mesmo que ninguém ainda o tenha comprado.

O panorama cultural português empobrece todos os dias! Seja sendo vítima de expedientes que banalizam pela quantidade o que deveria optar pela qualidade, seja, no inverso, pela falta de escolha de qualidade que os canais nacionais - os únicos a que a maior parte dos portugueses têm acesso - proporcionam. Alem dos noticiários - repetitivos, arrasadores de esperança ou vendedores de mensagens consideradas politicamente corretas pelos emissores - os programas são de uma impressionante miséria e vivem seja de uma espécie de lotarias telefónicas  que muitos acharão convidativas, seja das oportunidades que são dadas aos participantes dos vários programas de gozarem o seu quarto de hora de glória.

Acontece, como vi hoje num qualquer noticiário, Catarina Vaz Pinto - mulher de Guterres? - dar-nos conta de algo interessante que tem que ver com o nosso passado, ainda que tratando-se da Sinagoga de Amesterdão, datada do sec. dezasseis, mandada construir pelos judeus portugueses e primorosamente conservada. Nisso se perdeu, contudo, a oportunidade de dizer que essa riqueza se ficara a dever à exploração das minas de diamantes e outras pedras preciosas levada a cabo pelos judeus no Brasil, com mão de obra angolana e guineeense, durante mais de um século, e que era comercializada na Holanda onde se concentravam os maiores lapidadores de pedras preciosas. Portugal, como sempre, pouco ganhou com isso. E o mesmo aconteceria com as minas de diamantes de Angola... 

A verdade é que ninguém fala de nós! A preocupação com "a imagem" não deve inquietar-nos. Não há jornal ou revista estrangeira que se lembre que existimos, a menos que se trate de Ronaldo - com menção nas páginas centrais no ABC de Madrid -, ou do ex-misnistro Arnaud por algo que envolve as relações da política com a Banca internacional,  com o BES pelo meio

 

NÃO ENVELHEÇAS! SÊ ANTES FELIZ!

Apesar de haver muita gente doente ou à procura de doenças, o certo é que os médicos, especialmente os que apontavam para determinados alvos sociais, não estão em fase de muita procura. As pessoas estão a começar a ir ao médico quando estão de facto doentes - geralmente quando estamos doentes, por muito distraídos que sejamos, damos por isso...-  ´porque a complexidade da vida pouco espaço lhes deixa para se entregarem a banais doenças e, ainda menos, para ver se descobrem alguma. Só os velhos, curiosamente, têm esse amor à vida. Os outros, os de meia-idade, já só se dispõem a fazer "check up" quando muito instados ou, também acontece, quando pensam residir no corpo o mal que lhes afecta a alma ou encontrar aí um desvio para as suas preocupações existenciais.

O facto tem levado a que certos médicos do tipo  "faishonable" - os que procuram criteriosamente os seus nichos de mercado - se vejam por vezes obrigados a um oportuno "upgrade".

Vem isto a propósito de um médico convidado - não sabemos se a pedido do próprio se do apresentador...- para dar a conhecer as suas descobertas no campo do envelhecimento, em um daqueles programas populares com que as televisões preenchem o tempo dos que o têm. calhou-me te-lo e divertir-me a vê-lo.

O médico, sujeito bem apessoado, bem falante e portador de um nome reconhecível entre a "boa sociedade", trazia com ele um Zézé, já por demais conhecido nem sempre pelas melhores razões, que se dispôs, em prol do marketing, a exibir fotograficamente, em boxers, a sua triste figura antes de se ter deparado com a competência do miraculoso médico, e uma segunda na qual tinha, ao que deixou no ar, perdido, além do peso de massa corporal, o peso dos anos.  E tudo graças ao doutor que, após ter explicado os motivos que o tinham levado a deixar a área das drogas  por ter concluído, ao fim de vários anos de proveitosa clínica, aquilo que qualquer inspector da Polícia com esse sector a cargo já lhe teria dito há muito, ou seja, que o combate à droga passa pelo combate à rede de produtores, traficantes e consumidores. Desgraçadamente as próprias famílias também terão chegado há muito a essa conclusão e percebido que, por mais doloroso, é mais fácil aprender a conviver com o facto do que desgastar-se na cura de situações maioritariamente irreversíveis.

Inteligentemente, o doutor abraçou o mercado onde se situa a clientela mais numerosa, predisposta, e com mais meios  financeiros para tentar o sucesso - o que não acontecia com os drogados  que constituiam uma terrível sobrecarga familiar de despesas que se adicionavam aos expedientes das exigência do consumo - , ou seja: O ENVELHECIMENTO.

Um regalo ouvi-lo, porque o doutor não descurou nenhuma das vertentes afectadas nem o perfume  da sedução no que propunha, com grande simplicidade, para as conter.

O retardar do envelhecimento vai, segundo ele, desde o controlo do peso - aqui nada de novo porque este parece ser hoje um dos flagelos sociais que afecta mais a sociedade que os próprios, alguns com experiência de antepassados obesos que terão "falecido" proximo dos cem anos - , controlo conseguido com espantosa rapidez, a avaliar pelo ZéZé junto, mas também por um desejável emagrecimento da consciência, "objecto" que, segundo um franciscano meu amigo, não deveria existir. O doutor também propunha isso: deitar o passado para trás das costas deixando lá ficar tudo o que pudesse perturbar a consciência - creio ser isso o que os políticos, auxiliados pelos juristas,já aprederam há muito a fazer sem precisarem de recorrer ao médico - , iniciar um presente limpo de post-ocupações, um presente feliz virado para um futuro cuja principal preocupação fosse concentrarmos- nos numa motivação que nos faça felizes. Enfim, ter a FELICIDADE como lema, caminho e meta.O hedonismo como modo de vida, numa época em que a felicidade se mostra tão exigente, e com receituário privado.

É óbvio que, num tempo em que a felicidade - a felicidade a sério e não alienações em compatibilidade com a bolsa ou com a amoralidade  - se ausenta com bastante frequência da vida das pessoas e das comunidades, o apelo é extremamente atractivo! E o segredo, se tal se pode dizer, reside no ESQUECIMENTO!

"Varridela" para os que praticam o mal com o gozo que lhes dá poder praticá-lo, se possível mascarado de bem; "conselho" para que os que são dele vitimas esquecerem tudo o que lhes aturaram, a destruição das suas, horas, das suas vidas, dos seus países, dos seus valores, dos fundamentos da sua fé no mundo, etc.. 

EMAGRECER E ESQUECER! Eis um remédio simples e, tendo em vista o Zézé, de resultados garantidos. 

Corremos o risco de voltar a engordar - Christina Onassis, com todos os seus milhões, foi um harmónio...-  ou de à hora da morte, como parece ter acontecido com empedernidos ateus, termos um rebate de consciência, com a dúvida pendente entre o perdão e o castigo. Mas nessa altura quem se lembrará daquele médico?  

A CULTURA DO FEIO

Tudo aponta para que estejamos a assistir ao fim de uma Civilização que foi conformando o mundo à sua imagem e o foi liderando segundo os seus conceitos por mais de dois mil anos. Á requintada e socialmente organizada civilização do Mediterrâneo, seguiu-se a  civilização atlântica, mais mercantilista e vocacionada para a supremacia do ter sobre o ser na consolidação do Poder.

A grande dispersão que se seguiu, ora atropelando, ora absorvendo a grande maioria das culturas por onde passou, teve também o reverso: vestiram-se povos autóctones enquanto que os colonizadores se iam despindo cada vez mais, artistas como Picasso encontraram inspiração estética em raízes africanos, e muitos outros factos será sempre possível mencionar, pese embora a relutância com que a actual "civilização ocidental" - ela também reduzida já a um mero conceito -  aceite a origem desses fenómenos.

No campo da Estética a Civilização Ocidental foi grande devedora da harmónica e insuperável divina proporção da estética grega. A verdade é que os gregos tinham a seu favor, para além de uma organização social que favorecia o lazer e, consequentemente, o puro pensar - sem outro objectivo que não fosse o pensar-se e interrogar-se sobre o pensado -, beneficiava de condições geográficas em que a Natureza se apresentava no mais belo e requintado estado de pureza. A leveza do céu, de onde emerge uma luz branca que proporciona doces variações tonais, a transparência dos mares, a quietude das ilhas, a beleza consciente que inspirava a vida das suas gentes, tudo concorria para que fosse possível a invenção de um Olimpo povoado de deuses com características humanas , quer amistosas quer guerreantes, que a sua condição de divindades avolumava. Mas em tudo imperava o culto do Belo e a razão da sua origem e aceitação. 

Foi essa a estética que orientou as nossas artes pláticas e, porque a visão é talvez o mais imediato dos sentidos, marcou as nossos gostos. Levámos séculos - por que não dizer: milénios - a "curtir" a beleza nos moldes em que tinha vindo a ser transmitida e usada , quer na concepção física do divino, quer na nobreza que aportava a descrições, estátuas e bustos dos heróis na diversidade dos seus campos.

O abandono do culto do Belo -tal como o reconhecemos e adoptámos, inclusivamente na Moral ,onde o Bom e o Belo se confundiam (não era concebível aceitar como belo um acto imoral ou amoral, associando-se desde logo o Mal à fealdade das bruxas e a beleza à serena bondade das fadas)  - tem, dentro do abandono e rejeição do contexto civilizacional do Ocidente, tido conseguido um percurso rápido. De repente o Belo, que começara a identificar com o "luxo" devido a uma opção quase exclusiva das élites, ultrapassou a decadência que enfermou todas as outras áreas de culto da sociedade dita ocidental. E, o que até então tinha sido considerado feio, passou a ser visto como uma discutível opção, que tanto poderia ter como conteúdo esse como o seu contrário. E, assim, chegámos onde chegámos!

Hoje, vendo o anúncio de um livralheco de banda desenhada - que, ao que parece, ainda que em versões mais saudáveis, entrou tristemente em moda e há que não perder a "onda"...- concluí que o mau-gosto deixara de ser apenas uma fatalidade e se propunha começar a fazer escola. O "album" - anunciado! - irá reproduzir-se e tratar o tema que lhe serve de título: "Um casal vulgar". E, creiam, é de vulgaridade que se trata! A capa - da autoria de um "gólfista"desenhador- apresenta o casal. Uma mulher avarinada, sem idade, de cabelo no ar e seios pendendo sobre onde se supõe seria a cintura, fugindo de um homenzinho entradote, atarracado, com um olhar espantado por detrás de grossas lentes, calças em saca-rolhas e o ar de quem ia saltar para cima da mulher que o mirava em fuga e violá-la...caso ela quisesse.

Apresentar assim um casal, por mais vulgar - subentendendo que a intenção é falar de um casal tipo - inclina-nos mais para um "casal ordinário" (será que o título foi escolhido em francês?) do que para ideia que temos de um casal normal, por mais simples e provinciano que o pensemos. Tudo ali é feio! Pode ser que na página dez, Deus se tenha compadecido deles - e dos leitores - e lhes um bebé bonito como o são todos os bebés, que se fosse vida real, teria que arcar pela vida fora com aquelas inóspitas criaturas. 

Isto, porém, é um fait divers. Ninguém é obrigado a comprar o album e poderá sempre deitá-lo fora ou usá-lo parcialmente para outros fins. O problema é que o "estilo" rompe barreiras onde a solidez do Bom/Belo se fragiliza. Temos hoje uma geração como talvez nunca tenhamos tido: jovens altos, escorreitos, conservando os traços de famílias bonitas de onde vieram, de  uma agradável politesse, alinhando na vulgaridade apenas quando não desejam passar despercebidos. Distinguem-se mesmo em farrapos porque até os farrabos neles são bonitos. Mas temos também, num crescendo, um prazer da extravagância que choca mas que cabe na regra de ouro deles em que "o que importa é ser feliz". O desmazelo, que aliás sempre foi atributo das famílias feias, como que querendo acrescentar algo que mostrasse que eram assim por opção e não por fatalidade, tornou-se um complemento de vida que por vezes se confunde erradamente com a falta de asseio.

É certo que nem todos os homens podem ter metro e meio de pernas, mãos musculadas, narizes aquilinos, e uns belos olhos resplandecentes, tal como nem todas as mulheres podem ter figuras esguias, belas cabeleiras, ollhos bonitos, pele de pessego, e um andar flutuante. Cada um é como é em cada uma das fases da vida. Mas fazer o elogio do feio, celebrá-lo, como se uma mulher  desaustinada e um homenzinho de perna curta, narizinho de boneco, mãos de donzela e olhos piscos fossem uma maioria de tal modo que nem se desse por que eram assim, será demais.

Num mundo em que tudo é feio, desde o modo de estar e se exibir, até ao baixo calão - a procolália invasora - passando pelo insuportável elogio em causa própria, como se cada um de nós fosse seguidor/praticante de Kant e desejasse que todos nos comportássemos como eles, vai uma cada vez menor distância. E isso, juntamente com a estranha lição de liberdade que pôs a "europa" em alvoroço e serviu de banquete a uma comunicação social que vai levar tempo a mastigá-la, a menos que outros actos libertadores se imponham, e que repete ad infinitum os acontecimentos, com a banalização do sagrado, com o desprezo pela privacidade, com um oportunismo sem pátria nem dono, com uma ânsia de poder que visa apenas o bem de alguns em "off" e lamentando em "on" a situação dos que não podem e não têm, não nos conduzirá - como às vezes possa parecer - a uma nova versão da Idade Média. Porque temos um tronco sólido a que falta uma cabeça.

A verdadeira beleza, inspirada como sempre na beleza da Criação, surge agora na retoma das culturas africanas, com as suas belas mulheres e homens atléticos, que se dispões a revitalizar as suas tradições. O interesse pelo que deixámos vai-se perdendo. Quanto às grandes civilizações orientais com quem traficamos, fazendo embora a cortesia demostrar um agrado, não descuram, bem o sabemos as suastradições e padões de beleza que pasam pelos jardins e por coisas aparentemente tão insignificantes como o momento do chá. São SIM! 

De "O BANQUEIRO ANARQUISTA"

"Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização: ir para um campo comer raizes e beber água  das nascentes, andar nu e viver como um animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater; era fugir. Realmente quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado porque não se bateu. O processo tinha que ser outro - um processo de combate e não de fuga.

Como subjugar o dinheiro combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania não evitando o seu encontro? O processo era só um - adquiri-lo, adquiri-lo em quantidade bastante para não lhe sentir a influència: e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre estaria da sua influência, Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase actual - a comercial e bancária, meu amigo - do meu anarquismo.

(...)

- Porque escolheu vocè esta fórmula extrema e não se decidiu por qualquer das outras... das intermédias?...

- Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. É claro que nos folhetos que eu lia havia todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista - a teoria extrema como você muito bem diz - pelas razões que lhe vou dizer em duas palavras.

Ficou um momento coisa nenhuma. Depois voltou-se para mim.

- O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepôem às realidades naturais - tudo, desde a família ao dinheiro, desde a religião ao estado. A gente nasce homem ou mulher - quero dizer nasce para ser, em adulto, homem ou mulher, não nasce , em boa justiça natural, nem para ser  marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. É todas estas coisas em virtude das ficções sociais. Ora essas ficções sociais são más porquê? Porque são ficções, porque não são naturais! Se houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais.

(...)

-Qual é a ficção mais natural? Nenhuma é natural em si, porque é ficção. A mais natural, neste nosso caso, erá aquela que pareça mais natural, aquela que estamos habituados. (Você compreende: o que é natural é o que é do instinto: e o que, não sendo instinto, se parece em tudo com o instinto é o hábito, Ora qual é a ficção social que constiui um hábito nosso? É o actual sistema, o sistema burguês!"

 

Fernando Pessoa, editorial Nova Ática

Interessante  

A DESCIDA

Tentei hoje pela última vez entrar no facebook. Um disparate! Aquilo nunca me interessei nada por entrar lá e apenas o fiz porque, no negócio dos livros, alguém me sugeriu que fosse lá lê-lo. O "livro" era como tudo o que por lá se piblica mas eu viciei-me naqueles dálogos...que o não são. Com duas amigas ao lado, na Gulbenkian, depressa concluí que aquilo servia interesses que não eram os meus e que a maioria daquela gente não era a que eu respeitava. Tive inúmeras maçadas porque não sou do género de desistir e, mesmo por coisas que não valem nada - é bem mais interessante mandar um artigo bem fundamentado para um jornal onde tenhamos amigos ou enviar mensagens através deles do que perder um tempão ali quando há tanta coisa, bem mais criativa que negócios e voo de pássaros a fazer...- empenho-me sempre em ir até às últimas consequências. Só que, mesmo quando não respeito as pessoas tenho o maior respeito pelas instituições e pelas pessoas - não "gente" - que as servem ou representam.  Agora desisto mesmo, embora, até ver, ande por aqui.

A verdade é que as pessoas quando começam a descida moral, especialmente quando a caminho dos setenta, degradam-se. Nada mais ridiculo que um velho armado em Pigmaleão - que era um gentleman rico e elegante - a dar-se de jovem empreendedor! Até porque os pássaros têm tendência a poisar nas armações, mesmo nas dos veados. Acontece às vezes que quando acabam o trabalho cívico o aluno/a já está mais do que farto e eles mais do que velhos. O tempo passa depressa e se não procuramos perservar a imagem digna que um dia tivemos, ainda que tenhamos casado e baptizado todos os pretendentes a todas as coisas- bem aflitos que devem estar com a "honra"...- a nova sociedade onde vamos pedir a esmola de respeito nunca nos trará de volta o que perdemos e, mais depressa do que  os outros nos esquecem, cansar-seá de nós. Vale a pena pensar nisto...

De "O ARCO DO TRIUNFO" - Inquietação

"O quarto estava brilhantemente iluminado. Lembrou-se de que o deixara assim. O leito cintilava como se tivesse nevado sobre ele, inesperadamente. Ravic apanhou a folha de papel que colocara na mesa antes de sair e na qual avisava que estaria de volta dentro de meia hora e rasgou-a em pedacinhos. Procurou alguma coisa para beber. Nada encontrou. Desceu novamente as escadas. O  porteiro não tinha calvados. Sómente conhaque. Ravic levou consigo a garrafa de Hennessy e outra de Vouvray. Conversou uns instantes com o porteiro, provando-lhe que Lulu II teria melhores probabilidades na próxima corrida para cavalos de dois anos, em Saint-Cloud. O espanhol Alvarez passou junto deles. Ravic notou que ainda coxeava ligeiramente. Comprou então um jornal e voltou para o quarto. Como custava passar uma noite daquelas! Quem não acredita em milagres no que diz respeito ao amor está perdido, dissera o advogado Arensen, em Berlim, em 1938. duas semanas depois foi mandado para um campo de concentração porque a sua bem-amada o denunciara. Ravic abriu a garrafa de Vouvray e pegou num volume de Platão que estava sobre a mesa. Momentos depois largou o livro e sentou-se junto da janela.

Lançou um olhar ao telefone. Aquele maldito aparelho negro! Não podia telefonar a Joan. Não sabia o número. Nem sequer onde morava. Não lhe perguntara e Joan nada lhe dissera. Provavelmente calara-se de propósito. Assim restar-lhe-ia sempre uma desculpa.

Bebeu um copo de vinho leve. Que idiotice !- pensou. Aguardo uma mulher que esteve aqui ainda hoje, pela mahã. Durante três meses e meio não a vi e não senti tanto a falta dela como agora, quando passou longe de mim apenas um dia. Teria sido mais simples se nunca a tivesse visto. Já estava habituado à situação. Agora...

Levantou-se. Não era isto também. Era a incerteza que o corroía. Era a desconfiança que nele se insinuara e que aumentava de hora para hora.

Ravic foi até à porta. Sabia que não estava fechada, porém quis certificar-se mais uma vez. Começou a ler o jornal; leu-o como através de um véu. Disturbios na Polónia. O choque inevitável. A reivindicação do Corredor, o tratado da Inglaterra e da França com a Polónia. A guerra que se aproximava. Deixou cair o jornal e apagou a luz. Deitado na escuridão esperou. não podia dormir. Voltou a acender a luz. A garrafa de Hennessy achava-se sobre a mesa. Não a abriu. Levantou-se e foi sentar-se de novo perto da janela. A noite estava fresca, o céu alto carregado de estrelas. Alguns gatos miavam nos pátios. Olhou para o leito. Sabia que não poderia conciliar o sono. Inútil tentar ler. Mal se recordava do que lera antes. Sair - eis a melhor solução. Mas onde iria? Isso pouco importava. A verdade porém é que não desejava sair. Queria saber alguma coisa. Com os diabos! Procurou então os comprimidos de soporífero no bolso. Iguais aos que fornecera ao ruivo Finkenstein. Engoliu os comprimidos. Mesmo assim duvidava que conseguisse dormir. Engoliu mais um. Se Joan viesse despertaria.

Ela não veio. Como também não veio na noite seguinte."

Erich Maria Remarque, "Arco do Triunfo", ed. Livros do Brasil

 

Escrito no que foi o prelúdio da segunda guerra mundial por um médico alemão exilado em Paris, onde exerce medicina cirúrgica clandestinamente, é o relato intímo e vivido numa cidade onde convivem todas as convicções políticas da Europa e todas as consequentes solidões e humanas inquietações. Pelo meio uma história de amor sem lugar, magistralmente interpretada por Ingrid Bergman e (creio...) Curd Jurgens. Um livro que vale a pena ler, ou reler. Da minha geração, quem não se lembrará deste filme!  

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